Homo sapiens…ou não?
outubro 20, 2008Inobliterável?
outubro 19, 2008Decidi fazer este primeiro post acerca da origem do nome deste blog. Alguns dias atrás, em uma conversa filosófica/científica (para não dizer “louca” ou “insana”, segundo os parametros sociais usuais) com um grande amigo, ele citou um exemplo e utilizou a palavra “obliterar”. Me senti algo culpado por não saber que palavra era aquela que meu amigo utilizara com tanta naturalidade. Perguntei-lhe o significado da palavra e este me explicou o que era. Bem, esta breve história é só pra fazer um prólogo sobre o que irei escrever. Meu foco é esta palavra e outras idéias que podemos desenvolver a partir desta palavra.
Primeiro, vamos definir o significado de obliterar:
o.bli.te.rar
- ocultar
- diminuir
- reduzir
- destruir por completo, sem deixar vestígios
- carimbar um selo
No caso da conversa, meu amigo se referia ao 4º significado “destruir por completo, sem deixar vestígios”. Admito que foi uma palavra com a qual simpatizei e a qual me fez refletir sobre o seu uso.
“O que não pode ser destruido com por completo? o que por mais que você destrua sempre deixará vestígios?” em outras palavras, “O que pode ser inobliterável?” (talvez seja um neologismo, mas enfim isso não é de grande importância agora)
Então, refletindo e refletindo, lembrei de uma coisa inobliterável. As idéias (eis o segundo assunto em questão no nosso artigo). Os homens morrem mas suas idéias ficam para sempre, um bom exemplo histórico para citarmos seria o nazismo e o cristianismo. Seus criadores já morreram, mas a idéia perdura, por décadas, ou no caso do cristianismo, milênios!
Bom, se as idéias tem esse caráter “imortal”, vamos tomar de volta nosso exemplo do cristianismo e do nazismo. O cristianismo e seus ideais de prezar pelo próximo, de benevolência e tudo isso, são idéias que ajudam constantemente milhares de pessoas pelo mundo. Já no nazismo, a idéia de superioridade racial (que em realidade é algo muito mais antigo que o nazismo) é algo que é negativo para a humanidade mas, igualmente, perdura até os dias de hoje.
Tendo isso explícito, iremos para a terceira parte que desejo abordar neste artigo, os memes. Muitas pessoas já estão familiarizadas com o termo, outras desconhecem-no.
Para explicar melhor sobre o assunto, citarei partes de um texto que considero de ótima qualidade, ”O Poder do Meme Meme“:
“Sem a teoria da evolução por seleção natural nada no mundo da biologia faz algum sentido. Sem Darwin e o neo-Darwinismo, você não pode responder a perguntas como “Por que os morcegos tem asas? Por que os gatos tem cinco garras? Ou por que nossas fibras óticas se cruzam na frente de nossas retinas?” Você pode apenas se sentar e apelar para um criador imaginário.
Eu vou fazer uma afirmação audaciosa.
Sem a teoria da evolução por seleção memética nada no mundo da mente faz algum sentido. Sem a memética você não pode responder a perguntas como “Por que eu não consigo tirar esse pensamento da minha mente? Por que eu decidi escrever esse artigo e não esse outro? Quem sou eu?” Sem a memética você pode apenas se sentar e apelar para um agente consciente imaginário.
Uma História do Meme Meme
Em 1976 Dawkins publicou seu best-seller O Gene Egoísta. Esse livro popularizou a visão crescente na biologia que a seleção natural se procede não no interesse das espécies ou do grupo, nem mesmo do indivíduo, mas no interesse dos genes. Embora a seleção tome partido amplamente no nível do indivíduo, os genes são os verdadeiros replicadores e é a competição deles que dirige a evolução do design biológico.
Dawkins, claro e gentil como sempre, sugeriu que toda a vida em todo lugar no universo deve evoluir pela sobrevivência diferencial de entidades auto-replicadoras ligeiramente imprecisas; ele os chamou de “replicadores”. Além disso, esses replicadores automaticamente se juntam em grupos para criar sistemas, ou máquinas, que os carregam por aí e trabalham em favor de sua replicação continuada. Essas máquinas de sobrevivência, ou “veículos” são nossos corpos familiares – e os dos gatos, da E. coli e do repolho – criados para carregar e proteger os genes dentro deles.
Bem no final do livro ele sugere que o Darwinismo é uma teoria muito grande para ser confinada no restrito contexto do gene. Então ele faz uma pergunta óbvia e provocativa. Existem outros replicadores em nosso planeta? Sim, ele afirma. Bem na nossa cara, embora ainda esteja desajeitado à deriva em sua sopa primordial de cultura, é um outro replicador – uma unidade de imitação. Ele deu a ele o nome de “meme” (para rimar com “creme”) e como exemplos sugeriu “músicas, idéias, slogans, modas de roupas, modos de fazer vasos ou de construir arcos.” Os memes são armazenados nos cérebros humanos e passados adiante via imitação.
Em apenas algumas páginas ele dispôs a fundação para a compreensão da evolução dos memes. Ele discutiu sua propagação ao pular de cérebro para cérebro, os comparou com parasitas infectando um hospedeiro, tratou-os como estruturas vivas fisicamente realizadas, e mostrou como memes que se ajudam mutuamente irão se agrupar assim como os genes o fazem. Ele argumentou que, uma vez que um novo replicador surge, ele tenderá a tomar espaço e começar um novo tipo de evolução. Acima de tudo ele tratou os memes como replicadores por direito, castrando aqueles entre seus colegas que sempre tendiam a retornar à “vantagem biológica” para responder a perguntas sobre o comportamento humano. Sim, ele concordou, nós temos nossos cérebros por razões biológicas (genéticas) mas agora que nós os temos, um novo replicador foi solto e ele não necessita ser subserviente ao antigo. Em outras palavras, a evolução memética pode agora prosseguir sem se preocupar com seus efeitos nos genes.
Alguns anos depois Douglas Hofstadter escreveu sobre frases virais e estruturas auto-replicadoras em sua coluna Temas Metamágicos na Scientific American. Os leitores responderam, com exemplos de textos usando iscas e anzóis para assegurar a sua replicação. Eles sugeriram frases virais desde a instrução mais simples, tal como “Me copie!”, indo entre aquelas que adicionaram ameaças (“Me diga ou eu vou por uma maldição em você”) ou promessas (“Eu vou lhe conceder três desejos”), até exemplos de cartas-corrente virulentas (Hofstadter, 1985, p 53). Um leitor sugeriu o termo memética para a disciplina que estuda os memes. Porém a memética ainda não decolou realmente.
Por que não? A idéia básica é muito simples. Se Dawkins está certo então tudo que você aprendeu por imitação de alguém é um meme. Isso inclui todas as palavras no seu vocabulário, as estórias que você conhece, as habilidades e hábitos que você tomou de outras pessoas e os jogos que você gosta de jogar. Isso inclui as canções que você canta e as regras que você obedece. Então, por exemplo, se você dirige na direita (e eu na esquerda!), come um hamburguer ou uma pizza, assobia “Parabéns Pra Você” ou “Mamãe Eu Quero” ou até mesmo aperta mãos, você está tratando com memes.
O maior proponente da memética desde Dawkins foi o filósofo Dan Dennet. Em seus livros Consciência Explicada (1991) e A Perigosa Idéia de Darwin (1995) ele expande a idéia do meme como um replicador.
Em A Origem das Espécies, Darwin (1859) explicou como a seleção natural deve acontecer se certas condições são reunidas. Se há hereditariedade do pai para a prole, variação entre a prole, e nem toda a prole pode sobreviver – então a seleção deve acontecer. Os indivíduos que tem alguma vantagem útil “tem a melhor chance de ser preservados na luta pela vida” (Darwin, 1859, p 127, e veja Dennett, 1995, p 48) e então irão passar suas vantagens para suas proles. Darwin claramente viu quão óbvio o processo de seleção natural é uma vez que você o compreendeu. Ele simplesmente deve acontecer.
Dennett descreve a evolução como um algoritmo simples – que é, um procedimento desprovido de mente que, quando levado adiante, deve produzir um resultado. Para a evolução você precisa de três coisas – hereditariedade, variação e seleção – então a evolução é inevitável. Você não precisa nos pegar, claro, ou qualquer coisa remotamente parecida conosco; pois a evolução não tem planos nem previsões. Todavia, você tem que conseguir algo mais complexo do que aquilo com o qual você começou. O algoritmo evolucionário é “um esquema para criar Design do Caos sem a ajuda da Mente” (Dennett, 1995, p 50). Essa, disse Dennett, é a perigosa idéia de Darwin.
Não é nenhuma surpresa que as pessoas tenham ficado aterrorizadas com isso, e lutaram tão duramente contra ela. É escandalosamente simples e terrivelmente poderosa.
Se a evolução é um algoritmo então ela deveria ser capaz de rodar em diferentes substratos. Nós tendemos a pensar na evolução como dependente dos genes porque essa é a maneira com a qual a biologia funciona neste planeta, mas o algoritmo é neutro sobre isso e irá rodar onde quer que haja hereditariedade, variação e seleção. Ou – como Dawkins colocou – um replicador. Não importa que replicador. Se os memes são replicadores então a evolução irá ocorrer.”
Bom, apenas citei parte do texto para ter uma idéia básica do surgimento da teoria memética, vamos abordar outra parte dos memes (também presente no texto):
“Tomando o Ponto de Vista dos Memes
Nós estamos prontos agora para tomar o ponto de vista dos memes. A aproximação básica é assim – imagine um mundo cheio de hospedeiros para os memes (e.g. cérebros) e muito mais memes do que existem possíveis lares para eles. Agora pergunte – quais memes são mais prováveis de encontrar um lar seguro e serem passados adiante? É assim simples.
Ao fazer isso eu tentei seguir algumas regras simples.
Primeiro, lembre-se que os memes (assim como os genes) não tem poder de previsão!
Segundo, considere apenas os interesses dos memes, não dos genes ou do organismo. Os memes não se preocupam sobre os genes ou as pessoas – tudo o que eles fazem é se reproduzirem. Afirmações resumidas tais como “memes querem x” ou “memes tentam fazer y” devem sempre serem traduzíveis de volta para a forma maior, tal como “memes que tem o efeito de produzir x são mais prováveis de sobreviver do que os que não fazem isso.”
Terceiro, os memes, por definição, são passados adiante por imitação. Então aprender por tentativa e erro ou por feedback não é memético, nem o são todas as formas de comunicação. Apenas quando a idéia, o comportamento ou a habilidade é passado adiante por imitação é que conta como um meme.
Agora, lembrando-se dessas regras, nós podemos fazer a pergunta e ver para onde ela nos leva.
Imagine um mundo cheio de cérebros, e muito mais memes do que existem possíveis lares para eles. Que memes são mais prováveis de encontrar um lar seguro e serem passados adiante?
Algumas das conseqüências são inicialmente óbvias – uma vez que você as tenha visto. E algumas são assustadoramente poderosas.
Eu devo começar com duas simples, parcialmente como exercícios de como pensar memeticamente.
1 Por que não conseguimos parar de pensar?
Você consegue parar de pensar? Se você já meditou você sabe saberá quão difícil isso é – a mente simplesmente parece continuar alegremente. Se estivéssemos pensando pensamentos úteis, praticando habilidades mentais, ou resolvendo problemas relevantes haveria algum sentido, mas na maioria das vezes não parece que estamos. Então por que nós simplesmente não podemos nos sentar e não pensar? De um ponto de vista genético todo esse pensamento extra parece extremamente desperdiçador – e animais que desperdiçam energia não sobrevivem. A memética provê uma resposta simples.
Imagine um mundo cheio de cérebros, e muito mais memes do que existem lares. Que memes são mais prováveis de acharem um lar seguro e serem passados adiante?
Imagine um meme que encoraja seu hospedeiro a mantê-lo mentalmente ensaiado, ou uma música que é tão fácil de cantarolar que fica girando em sua cabeça, ou um pensamento que simplesmente te obriga a continuar pensando sobre ele.
Imagine em contraste um meme que se enterra caladamente em sua memória e nunca é ensaiado, ou uma música que é tão imemorável para girar em sua cabeça, ou um pensamento que é chato demais para ser repensado.
Qual se sairá melhor? Outras coisas sendo iguais, o primeiro irá muito. Ensaio auxilia a memória, e você é mais provável que você expresse (ou até mesmo cante) as idéias e músicas que preenchem suas horas ao acordar. Qual é a conseqüência? A memosfera se enche de canções atraentes, e de pensamentos pensáveis. Nós todos cruzamos com eles e então nós todos pensamos um bocado.
O princípio aqui é familiar da biologia. Em uma floresta, qualquer árvore que cresça mais consegue mais luz. Então os genes para crescer alto se tornam mais comuns na piscina de genes e a floresta termina sendo tão alta quanto as árvores podem ser.
Nós podemos aplicar o mesmo princípio novamente.
2 Por que nós falamos tanto?
Imagine um mundo cheio de cérebros, e muito mais memes do que existem lares. Que memes são mais prováveis de acharem um lar seguro e serem passados adiante?
Imagine qualquer meme que encoraje a fala. Ele pode ser uma idéia como “falar torna as pessoas como você” ou “é amigável conversar”. Pode ser um pensamento urgente que você sente obrigado a compartilhar, uma piada engraçada, boas notícias que todos querem ouvir, ou qualquer meme que prospere dentro de uma pessoa faladora.
Imagine em contraste qualquer meme que desencoraje a fala, tal como o pensamento “falar é perda de tempo”. Ele pode ser algo que você não ousa dizer alto, algo muito difícil de dizer, ou qualquer meme que prospere dentro de uma pessoa tímida e retraída.
Qual se sairá melhor? Posto dessa forma a resposta é óbvia. O primeiro será muito mais ouvido por mais pessoas e, outras coisas sendo iguais, simplesmente deve ter uma chance melhor de ser propagado. Qual é a conseqüência disso? A memosfera irá se encher com memes que encorajam a fala e nós iremos todos falar bastante. E nós falamos!
Uma maneira mais simples de expor isso:- pessoas que falam mais irão, em média, disseminar mais memes. Então qualquer meme que prospere em tagarelas é mais suscetível a ser disseminado.
Isso me faz enxergar a conversação sob uma nova luz. Toda essa falação é fundeada em vantagens biológicas? Falar gasta muita energia e nós falamos sobre algumas coisas estúpidas e sem sentido! Esses pensamentos e conversações triviais e estúpidos tem alguma vantagem biológica escondida?
Eu gostaria de pelo menos oferecer uma sugestão que eles não oferecem. Que nós fazemos toda essa falação e toda essa pensação meramente porque os memes que nos fazem fazer isso são bons sobreviventes. Os memes parecem estar trabalhando contra os genes.
Isso prepara o palco para uma sugestão mais audaciosa.
3 Por que nós somos tão gentis com os outros?
Claro que nós não somos sempre gentis com os outros, mas a cooperação humana e o altruísmo são coisas misteriosas – a despeito dos tremendos avanços feitos na compreensão das seleção de grupo e conveniência inclusiva, altruísmo recíproco e estratégias evolucionárias estáveis (veja e.g. Wright, 1994; Ridley, 1996). As sociedades humanas exibem muito mais cooperação do que é típico das sociedades de vertebrados, e nós cooperamos com os não-relativos em uma larga escala (Richerson e Boyd, 1992). Como Cronin o pôs, a moralidade humana “apresenta um desafio óbvio para a teoria Darwiniana” (Cronin, 1991, p 325).
Todos podem pensar provavelmente nos seus exemplos favoritos. Richard Dawkins (1989 p 230) chama a doação de sangue de “um genuíno caso de altruísmo puro e desinteressado”. Eu fico mais impressionada pela caridade de dar às pessoas em países distantes que provavelmente compartilham tão poucos dos nossos genes quanto qualquer outra pessoa na terra e que nós provavelmente nunca iremos conhecer. E por que nós devolvemos carteiras achadas na rua, resgatamos animais selvagens machucados, suportamos companhias eco-amigas ou reciclamos nossas garrafas? Por que tantas pessoas querem ser pobres enfermeiras e conselheiras com péssimos salários, assistentes sociais e psicoterapeutas, quando elas poderiam viver em casas maiores, atrair companheiros mais ricos, e ter mais crianças se elas fossem banqueiras, corretoras ou advogadas?
Muitas pessoas acreditam que tudo isso deve finalmente ser explicado em termos de vantagem biológica. Talvez será, mas eu ofereço uma alternativa a ser considerada; a teoria memética do altruísmo. Nós podemos usar nossa tática, agora, familiar.
Imagine um mundo cheio de cérebros, e muito mais memes do que existem lares. Que memes são mais prováveis de acharem um lar seguro e serem passados adiante?
Imagine o tipo de meme que encoraja o seu hospedeiro a ser amigável e gentil. Ele poderia ser um para dar boas festas, para ser generoso com a geleia de laranja deita em casa, ou apenas estar preparado para gastar tempo escutando às mágoas de um amigo. Agora compare isso com os memes para ser antipático e pão-duro – nunca cozinhando jantares para as pessoas ou pagando drinks, e recusando a gastar seu tempo ouvindo os outros. Qual irá se disseminar mais rapidanente?
O primeiro tipo, claro. As pessoas gostam de ser gentis com as pessoas. Então aqueles que abrigam muitos memes amigáveis irão gastar mais memes com os outros e Ter mais chances de disseminar seus memes. Em conseqüência muitos de nós iremos acabar abrigando muitos memes para sermos gentis com os outros.
Uma maneira mais simples de dizer isso:- as pessoas que são altruísticas irão, em média, disseminar mais memes. Então qualquer meme que prospere em pessoas altruísticas é mais provável de disseminar – incluindo os memes para ser altruísta.
Você pode desejar desafiar qualquer um dos passos acima. É portanto animador aprender com os muitos experimentos de psicologia social, que as pessoas são mais suscetíveis a adotar idéias de pessoas que elas gostam (Eagly e Chaiken, 1984). Se isso é uma causa ou é uma conseqüência do argumento acima é algo debatível. Seria mais interessante se fatos psicológicos como estes, ou outros tais como a dissonância cognitiva, ou a necessidade de auto-estima, pudessem ser derivados simplesmente de princípios meméticos – mas esse é um tópico para outra hora!
Por enquanto nós devemos considerar se a idéia é ou não testável. Ela prediz que as pessoas deveriam agir de maneiras que beneficiem a disseminação de seus memes mesmo à um certo custo a si mesmas. Nós estamos acostumados em comprar informação útil, e com anunciantes comprando seus meios até a mente das pessoas com o propósito de vender produtos, mas essa teoria prediz que pessoas irão pagar (ou trabalhar) simplesmente para disseminar os memes que elas carregam – porque os memes as forçam. Missionários e Testemunhas de Jeová parece que o fazem.
Muitos aspectos da persuasão e da conversão em causas podem acabar envolvendo altruísmo dirigido por memes. Altruísmo é mais outro tipo de truque memético que as religiões (aqueles complexos de memes mais poderosos) tem explorado. Quase todas elas prosperam ao fazer seus membros trabalharem para elas e acreditar que eles estão fazendo o bem.
Claro, ser generoso é caro. Sempre existirá pressão contra isso, e se os memes puderem achar estratégias alternativas para disseminar, eles irão. Por exemplo, pessoas poderosas podem ser capazes de disseminar memes sem ser altruístas! Entretanto, isso não muda o argumento básico – que o altruísmo dissemina memes.
Você pode ter percebido que o tema principal em todos esses argumentos é que os memes podem agir em oposição ao interesse dos genes. Pensar o tempo todo pode não usar muita energia mas deve custar algo. Pensar é certamente dispendioso, como qualquer um que tenha estado totalmente exausto ou seriamente doente iria atestar. E, claro, qualquer ato altruísta é, por definição, custoso para o autor.
Eu diria que isso é exatamente o que nós deveríamos esperar se os memes são verdadeiros replicadores. Eles não se preocupam com os genes ou as criaturas que os genes criaram. O único interesse deles é a auto-propagação. Então se eles puderem se propagar ao roubar recursos dos genes, eles o farão.
No próximo exemplo nós veremos os memes forçando a mão dos genes de uma forma muito mais dramática.
4 Por que nossos cérebros são tão grandes?
Sim, eu sei que isso é um velho castanheiro, e que existem muitas e muitas boas respostas para a pergunta. Mas elas são boas o suficiente? Não vamos nos esquecer quão misteriosa a questão realmente é. Os cérebros são notoriamente caros tanto para serem construídos quanto para funcionarem. Eles tomam cerca de 2% do peso do corpo mas usam cerca de 20% de sua energia. Nossos cérebros tem três vezes o tamanho dos cérebros dos macacos com corpo de tamanho equivalente. Comparados com outros mamíferos nosso quociente de encefalização é ainda maior, até 25 vezes (Jerison, 1973; Leakey, 1994; Wills, 1993). Em muitas medidas a capacidade do cérebro humano se destaca. O fato que tal inteligência surgiu em um animal que fica de pé pode ou não ser uma coincidência mas ele certamente aumenta o problema. Nossos pélvis não são idealmente adaptador para dar a luz a cérebros grandes e então o nascimento das crianças é um processo arriscado para os seres humanos – mesmo assim nós o fazemos. Por que?
O mistério ficou mais profundo para mim ao pensar sobre o tamanho da vantagem biológica requerida para sobrevivência. Em um estudo a respeito do destino dos Neandertais, Zubrow (Leakey, 1994) usou simulações de computador para determinar o efeito de uma margem ligeiramente competitiva. Ele concluiu que uma vantagem de 2% poderia eliminar a população competidora em menos de um milênio. Se nós necessitamos apenas de uma vantagem tão pequena por que nós temos uma tão grande?
Diversas respostas foram recentemente propostas. Por exemplo, Dunbar (1996) argumenta que nós precisamos de cérebros mais largos para poder fazer fofocar, e fofocar é um tipo de trote verbal para manter grandes bandos de pessoas juntas. Christopher Wills (1993) argumenta que a evolução desenfreada do cérebro humano resulta de um acelerante loop de feedback gene-ambiente. Miller (1993) propõe que nossos vastos cérebros foram criados pela seleção sexual; e Richerson e Boyd (1992) afirmam que eles são usados para aprendizado individual e social, favorecido pelas crescentes taxas de variação ambiental.
O que todos esses autores tem em comum é que seu último apelo é para os genes. Como os colegas de Dawkins que gemem, eles sempre desejam voltar para a vantagem biológica. Eu proponho uma alternativa baseada na vantagem memética.
Imagine hominídeos antigos que, por boas razões biológicas, ganharam a habilidade de imitar uns aos outros e a desenvolver uma linguagem simples. Uma vez que esse passo tenha ocorrido os memes podem começar a se disseminar, e o segundo replicador nasceu. Lembre-se – uma vez que isso tenha acontecido os genes não seriam mais capazes de parar a disseminação! Presumivelmente os memes mais antigos seriam úteis, tal como maneiras de fazer vasos ou facas, ou maneiras de pegar ou desmembrar a presa. Vamos assumir que algumas pessoas teriam cérebros um pouco maiores e que esses cérebros maiores fossem melhores copiadores. Conforme mais e mais pessoas começaram a pegar esses memes antigos, o ambiente iria mudar e então iria se ficar mais e mais necessário ter novas habilidades para poder sobreviver.
Uma pessoa que poderia rapidamente aprender a fazer um bom vaso ou contar uma história popular iria achar mais facilmente um companheiro, e então a seleção sexual iria adicionar mais pressão para cérebros grandes. No novo ambiente pessoas com cérebros maiores iriam ter uma vantagem e a importância da vantagem iria aumentar conforme os memes se disseminassem. Me parece que essa mudança fundamental nas pressões de seleção, aumentar a taxa de propagação dos memes, provê pela primeira vez uma razão plausível por quê nossos cérebros são totalmente destacados de todos os outros cérebros no planeta. Eles foram dirigidos pelos memes. Um replicador forçou os movimentos do outro.
5 Quem sou eu?
Nós podemos agora ver a mente humana como o produto de dois replicadores, um usando para sua replicação a maquinaria criada pelo outro. Como Dennett apontou, as pessoas são animais infestados com memes. Nossas personalidades, habilidades e qualidades únicas derivam da complexo interação desses replicadores. E sobre nossos mais profundos eus – o “verdadeiro eu”, a pessoa que experimenta a “minha” vida?
Eu diria que os eus são complexos de memes co-adaptados – embora apenas um dos muitos suportados por qualquer cérebro dado (Blackmore, 1996). Como as religiões, sistemas de crença política e cultos, eles são conjuntos de memes que prosperam na companhia uns dos outros. Como as religiões, sistemas de crença política e cultos, eles são abrigos seguros para todos os tipos de memes viajantes e eles estão protegidos da destruição por vários truques meméticos. Eles não tem que ser verdadeiros.
De fato nós sabemos que “eus” são um mito. Olhe dentro do cérebro e você achará apenas neurônios. Você não achará uma pessoazinha puxando as cordas ou um homúnculo observando o show em uma tela lá dentro (Dennett, 1991). Você não acha o lugar onde as “minhas” decisões conscientes são tomadas. Você não acha a coisa que apaixonadamente segura todas essas crenças e opiniões. A maioria de nós ainda persiste em pensar sobre nós mesmos dessa forma. Mas a verdade é que – não há ninguém lá!
Nós agora temos uma resposta radicalmente nova para a pergunta “Quem sou eu?”, e de certa forma uma horripilante. “Eu” sou um dos muitos complexos de meme co-adaptados vivendo dentro desse cérebro. Essa idéia assustadora pode explicar por que a memética não é mais popular. A memética lida com um terrível sopro na supremacia do eu.”
Então (considerando a teoria dos memes), se o “Eu” é “um dos muitos complexos de meme co-adaptados vivendo dentro desse cérebro” e o meme é uma idéia (algo inobliterável) seria o “Eu” não pode ser destruído por completo, não falo do nosso “Eu” carnal, e sim deste “novo Eu”.
Após esta pequena reflexão, de volta ao tópico principal desta postagem que é a justificativa do fato de ter escolhido o nome “inobliterável”. Agora que já entendes muitas coisas que talvez anteriormente desconheceras, a explicação é simples. Esse blog é uma idéia, intangível, impalpável e inobliterável. Por mais que deletem este blog, eu ainda terei estas idéias na cabeça, evolucionando cada vez mais, por mais que me calem, as pessoas que leram este blog ainda terão idéias (ou memes!) nas cabeças evolucionando, sendo criticadas e/ou afirmadas pelas buscas do próprio leitor. O que eu busco, é uma sociedade que começe a pensar sobre as coisas que leêm, uma sociedade que não seja subordinada as idéias “feitas para massas” sobre um determinado assunto. Se, através deste blog, eu conseguir incitar a curiosidade, a dúvida e o pensamento crítico do leitor, então o obejtivo deste blog foi cumprido. Uma pessoa que vive nas verdades, vai viver numa realidade estagnada, ficará presa a este tempo, aos dogmas dessa época. Uma pessoa que vive nas dúvidas, ficará confusa muitas vezes e procurara uma verdade, eventualmente, surgirão mais dúvidas do que verdades (experiencia própria), a idéia é que continue buscando as verdades para essas dúvidas, mesmo sabendo que elas são mutáveis, por que ai, você passa a ser um crítico, um ser pensante, não submisso a vontades alheias (embora exista uma falha, mas deixarei para vocês refletirem sobre e chegarem as suas próprias conclusões. Se descobrirem, por favor escreva nos comentários).
Por fim, gostaria de comentar a alegria que tenho sobre a inciativa de meus amigos, que também criaram blogs, com seus pontos de vista sobre diversos assuntos e que, me incentivaram a reativar o meu antigo blog, sob outro nome.
Se você deseja continuar a leitura sobre “O poder do meme meme”, clique AQUI
Escrito por neko